sábado, 12 de novembro de 2011

Tratado sobre o suicídio


Decididamente: eu não admiro os enforcados.
Estar ali, pendurado
instalação surreal
arte macabra, inusitada
lentos movimentos
cronometrando o tempo
emulando pêndulos
que não estimulam o gênio
de Galileus ou Galilei.
Afora o trabalho que dá
muitos elementos a considerar
precisa-se de uma corda
um banquinho bem alto
uma viga para amarrar a corda.
Massa corpórea
vezes altura do banquinho
vezes comprimento da corda
vezes pressão atmosférica
vezes força da gravidade
vezes alinhamento de Marte com Saturno
vezes cotação do dólar:
haverá na física uma fórmula
que possa livrar o suicida
da tortura do último cálculo?
Não, essa forma não me cabe
imagino o desconforto
não gosto que nada aperte-me o pescoço
afrouxo a gravata nos dias ensolarados.
Um tiro na cabeça é outra forma de despedir-se
os neurônios remanescentes nem tem tempo de reagir
mas… descarto…
meu ouvido é sensível
não quero levar para o além o cheiro da pólvora
nem o eco do estampido
do último tiro
disparado próximo ao ouvido.
Outros preferem saltar de edifícios
executam evoluções aéreas até que mergulham em lagos de granito
A turba está agitada,
não é todo dia que se assiste um suicídio
A área é isolada,
alguém empunha uma faixa
“Por favor, não pule !”
Chegam a imprensa, os bombeiros, o celular com a voz de um amigo
A multidão quase não pisca ou respira
Oh, meu Deus! Tomara que não pule! Ele não pode pular!
Mas lá no fundo, bem no fundo, torcem pelo pior,
para que possam chegar em casa e anunciar em primeira mão:
“Eu estava lá, eu vi, foi horrível ! …”
Eu gostaria de frustrar essa gente que não torce por nós
que põe holofotes sobre nossas tragédias
que assentam-se em arquibancadas
e assistem nossa vida como se ela fosse um picadeiro de circo.
Eu iria lá no fundo do prédio,
onde ninguém estivesse olhando e,
sem nenhum sinal ou aviso,
pularia e diria bem baixinho: good bye.
Mas … não … não faria isso…
poderia cair sobre um passante, um transeunte.
E… se jogar na frente de um carro?
Não, também não, muito deselegante
estragaria a lataria do carro alheio
e não ficaria por aqui para pagar o conserto…
há de considerar-se, ainda,
que o atropelado não pode ser tocado
até chegar a perícia
torna-se um morto inconsequente
ao causar um dos maiores suplícios das grandes metrópoles:
tráfego - de - veículos - interrompido.
Não concordo com isso ou aquilo
A morte deve causar o mínimo de consequências possíveis
para aqueles que não tem nada a ver com isso
não pode atrapalhar o trânsito de veículos ou destinos.
E… queimar-se?
Sem chance, só se o cérebro morresse primeiro.
lanço a polêmica: incinerar-se não é suicídio, é auto-punição
o corpo arde enquanto o cérebro
fica protegido, blindado,
dentro da caixa craniana
cada segundo é eterno
e a mente consciente espera
uma morte tão lenta que parece que nunca chega…
Então… afogamento? Sufocamento? Tipo, morte por asfixia?
Nem pensar, já tô ficando com falta de ar…
Todas as formas são horríveis
tudo causa angustia, dor, sofrimento…
Ah… quem dera…
morrer sem sofrer
morrer sem sentir dor
morrer uma morte suave
morrer com beleza, com poesia…
como estar assim,
sentado sobre o piso de azulejos
a água quente caindo do chuveiro
uma névoa branca de vapor
perfumada, por misturar-se ao cheiro
de sabonetes e shampoos
e um líquido vermelho, viscoso, jorrando
do corte profundo no pulso
diluindo-se na espuma branca
e criando belos degrades
que vão do vermelho sangue ao rosa-bebê
esvaindo-se pelo ralo junto com a água, junto com a vida
e essa dormência, e esse torpor, e essa tontura…
e essa deliciosa… vontade… de dormir…

Por: Claudio

2 comentários:

  1. olá, Bruna. Sem problemas você ter copiado minha postagem e colado aqui no seu blog, sem problemas, voce até citou meu primeiro nome no final do texto, tá certo, você só esqueceu de colocar o link para a postagem original do meu blog, como dita a ética na web. Tô tomando a liberdade de deixar o link logo abaixo:

    http://progcomdoisneuronios.blogspot.com.br/2011/04/tratado-sobre-o-suicidio.html

    Abraço.

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  2. Obrigado por disponibilizar o link... Me desculpe o transtorno.

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